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Alana Silveira

José Adario

Em toda ferramenta que José Adário dos Santos faz reluz o sol das forjas acesas d'Ogum do fogo azul.

Os itãs do candomblé contam que toda criação e invenção passa pelo caminho de Ogum, sendo ele o senhor dos caminhos.

Agô


pra gente passar.

Correntes, barras, tubos, trilhos: onde houver ferro – chamado de jabá por quem seus segredos sabe – haverá a potencialidade da força de Ogum, orixá que ensinou a humanidade a usar a forja para moldar e transformar ferro em ferramentas que permitiram enfrentar a guerra, trabalhar com a terra, erguer paredes e conectar o orun, que é mundo de lá, com o aiê, o de cá. Assim como Ogum uniu com suas correntes o céu e a terra durante a criação do mundo, Zé Diabo – como José Adário é chamado em Salvador – constrói pontes e caminhos para a conexão com o sagrado ao materializar as ferramentas de santo. No forjar de cada lança, enxada, faca, foice, cobra ou folha ele aponta na direção da força motora da vida, da natureza, do orixá – o axé.

Atravessa quem é de ir.

Formas que fascinam pela força. Círculos, espirais, faces, espadas, tridentes e machados são executados com a precisão de um caçador que possui uma única flecha. Há um encantamento em tudo o que é feito por suas mãos – que carregam a sabedoria do seu povo – e com paciência, ferro, fogo, fumaça e fé as ferramentas são feitas.

José Adário dos Santos nasceu em 1947 na periferia de Salvador – a Roma Negra brasileira – em uma família de tradição de axé onde Ogum é quem reina. O orixá que atravessa toda a sua linhagem de bisavós, avós e pais está no seu caminho e, como patrono do ferro e seu padrinho, revela os segredos de uma técnica-tecnologia ancestral, dando sempre a força e criatividade para que ele possa – ainda hoje, aos 75 anos – labutar com o ferro.

Em um tempo que era outro, para ocupar um menino cheio de energia – como costumam ser as crianças – arranjaram uma vaga para José ser aprendiz de ferreiro e, aos 11 anos, ele chegou na Ladeira da Conceição da Praia, uma das primeiras e principais rotas de ligação entre as Cidades baixa e alta de Salvador. Foi nesse local historicamente marcado pela ocupação e resistência de uma população trabalhadora majoritariamente negra de artífices e artesãos que José aprendeu com seu mestre, Maximiniano Prates, sob o sol, salitre e suor. Até hoje lá permanece como um dos últimos detentores de um conhecimento que atravessou o Atlântico e os tempos, sendo passado de geração em geração. Agora, como ele mesmo diz, “quem sabe já foi e quem aprendeu, aprendeu.”

Entre observar fazer, levar baldes de água para seu mestre tomar banho e carregar as caixas cheias de diabos – ferramentas de exu – para serem vendidas no mercado Modelo, José tornou-se ferreiro e “Zé Diabo”, como é conhecido e respeitado nas casas de candomblé e umbanda da Bahia. Suas ferramentas exímias e singulares fizeram seu trabalho atravessar as fronteiras do sagrado e despertar o interesse de pesquisadores, artistas, curadores e instituições de arte e cultura pelo mundo.

Seu Zé conta que seu mestre fazia as ferramentas em tamanhos menores e, após a sua partida, desenvolveu a sua própria forma de fazer, fundindo os saberes do ferro e do candomblé. Iniciado na religião por sua avó, Bárbara do Sacramento, aos 8 anos de idade, José foi aprendendo com os seus mais velhos os saberes sagrados e secretos do axé, conhecimento que é fundamental para o desenvolvimento simbólico e visual de suas peças. Cada ferramenta é "como tem que ser", a fim de materializar as formas que dão força aos orixás.

 

As ferramentas de santo existem enquanto objetos sagrados para as religiões de matriz africana e, para esse fim, após saírem da oficina são consagradas para compor os assentamentos dos orixás. No deslocamento desses objetos para o contexto artístico, elas não atravessam esses processos ritualísticos. Mas a criação das ferramentas na oficina de seu Zé é sempre permeada por uma ritualidade: o desenvolvimento de cada peça se inicia no desenho, feito em qualquer pedaço de papel. Após o fogo aceso, o ferro percorre um tortuoso trajeto no qual, depois de sair do ferro-velho, perpassa os diversos elementos da forja, envolve-se na fumaça do charuto, na pintura com o verniz até ir secar ao sol na porta da oficina. Ele diferencia sutilmente as ferramentas que vão para os assentamentos das que não.

Seu Zé só trabalha com ferro e, por isso, só faz ferramentas dos orixás que possuem o ferro enquanto elemento: Exu (por onde sempre se começa), Ogum, Oxóssi, Ossain, Oxumarê, Obaluaê, Tempo...

Parte das ferramentas produzidas especialmente para essa exposição foram escolhidas por seu Zé, que dentre todas as ferramentas feitas ao longo dos mais de 60 anos de trabalho, buscou na memória as que acreditava ter uma beleza singular.

Do artífice ao artista, da ferramenta de santo à escultura. Se as obras de José Adário dos Santos ocupam, já faz tempo, estantes e pedestais de casas, galerias e museus, então que ele esteja também no lugar de artista para ter o reconhecimento, material e imaterial, que lhe é de direito. Justo é o machado de Xangô e como ele, toda faca tem dois gumes, todo caminho é ambivalente, como Exu.

Agradeço sempre por ter passado na encruzilhada onde o meu caminho se cruzou com o de seu Zé, senhor da minha profunda consideração.

Que nosso caminho esteja sempre aberto, protegido e iluminado.