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Rebeca Carapiá Souza Silva

Estive aqui muitas vezes antes de chegar

Uma paisagem balança os olhos na Conceição da Praia. À primeira vista, vi da Cidade Baixa os arcos que hoje colorem a subida da ladeira. Antes vazios, abrigavam apenas os ventos que sopravam da Baía, em passo lento os corpos trabalhadores, encorajados e sapientes viram na curva que desenha os pés da Ladeira da Montanha o lugar de ficar e ser futuro.

Nas poucas passagens que fiz quando criança, via a poeira que faz véu de cima para baixo, pó de mármore, areia de praia, salitre e ferro. Este último arde e faísca a cada martelada: como conhecer o trabalho duro dos operários na esquina da Baixa do Fiscal enquanto ouço os estalidos que vem do alto?

Transitar o corpo, conhecer a paisagem, traçar o deslocamento e girar em espiral para ser ancestral no presente, foi o movimento que me trouxe até aqui.

Eu conheci os arcos da Conceição pelo fundo dos pés, já que o buzu que carrega os corpos da Cidade Baixa sobe pela Ladeira da Montanha. Subi dias, anos inteiros, bronzeando o rosto na janela, recebendo a luz do sol matinal a caminho da escola. Escolhi estudar na Cidade Alta, porque todos os dias podia ver o mar e mesmo apertada entre os corpos exaustos nas manhãs de segunda feira: sorria, pois andar junto de uma ponta a outra me fez aprender a estar em movimento.

Antes de escutar o estalo da bigorna que orna e faz companhia ao Sr. Zé Adário, furei inúmeras vezes as mãos nos restos de arames jogados no chão da Feira do Rolo. Catei com meu irmão os fios que hoje escrevem palavras quebradas e cheias de ar, fios de cobre que se embolam com a língua e os cabelos para dizer daquilo que conheço pouco, mas sinto muito.

O Barco feito para afundar, que hoje arrasto pelo fundo da casa alagada, navegou nas águas das enchentes recolhendo as memórias enferrujadas para grafar histórias nunca escritas. O salitre que corrói as paredes da chapa de 1/2" escorreu do Uruguai a Ladeira da Conceição da Praia e por isso peço Agô para acender a quentura que molda esse encontro com Sr. Zé.

Cheguei sessenta e dois dias antes para esse momento, bati na porta vazia do arco 26, mas precisava atravessar o Atlântico para encontrar as portas abertas e aprendi nos espaços da palavra t e m p o que distância não é ausência e nesses dias estive aqui muitas vezes.

"Seu Zé", que é muito mais Senhor do ferro, da forja e das coisas que nunca saberemos, conta histórias acompanhado da bigorna que recebe o ferro quente e molda a marteladas os pássaros que queimam os dedos antes de pousar na água. E foi com dedos em brasa e o corpo cheio de fuligem que vi Zé Diabo acender o fogo, gargalhar e dobrar a materialidade que ergue o teto sobre nossas cabeças.

É no risco fino para marcar os 30cm da barra redonda de 3⁄8 que o pássaro enverga sua coluna e as marteladas em ritmo compassado cantam para o topo da ferramenta de Ossain, que o ferro dentro da forja vermelha, cede. Ouço no fundo da oficina ele dizer: "eu não me abro pra todo mundo não, viu?!" Enquanto me ensina no "susto" a forja que aprendeu com seu Mestre, que sem partir, sem cortar, sem quebrar, faz nascer cabeça e asa.

Com as mãos dentro do carvão, o fogo acende antes da brasa e na força do gesto circula, grafando, criando dentro do invisível, como nos ensina Leda Maria Martins, que nos conta sobre tempo espiralar e performatividade. A vibração da máquina de forja, dos alicates fundidos sobre a poeira de tudo que já foi queimado parece nos contar sobre dias que virão e já se foram.

Cada faísca que corta quente o chão, traduz permanência e escuta. É no invisível que nos encontramos, eu e Sr. Zé, no dito sem dizer, no gesto fazendo. A energia que dobra o ferro entre os dedos é a mesma que mantém nossas pernas firmes no chão batido e ergue o peso da marreta. Nós que nos encontramos com os fios de contas azuis e verdes no pescoço, sentados nas cadeiras de plástico, sabemos que no grito da máquina que corta também se faz feitiço.

Ao Mestre José Adário, ferreiro dos orixás, Modupé.